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A escola de tempo integral já é um prenúncio do que devem ser todas as escolas no Brasil

educacao
17 de fevereiro de 2020

A afirmação foi feita por Anna Penido, diretora do Instituto Inspirare, em entrevista concedida para o portal da Seduc

O Governo de Goiás, por meio da Secretaria de Estado da Educação (Seduc), já no início desta gestão, criou na estrutura da Secretaria, a Superintendência de Educação Integral, responsável pelo desenvolvimento e execução da política de Educação integral na rede pública estadual de ensino. A criação de uma estrutura específica, no âmbito da Seduc, demonstra a dimensão dos preceitos do tempo integral na Educação ofertada nas escolas estaduais de Ensino Fundamental e Médio de Goiás.

Agora, em 2020, mais 28 escolas da rede estadual aderiram ao ‘Programa de Fomento às Escolas de Ensino Médio em Tempo Integral’ sendo que 16 já atendiam a Educação integral no Ensino Fundamental/Médio e 12 são novas escolas nesta modalidade.

Atualmente a rede estadual conta com 149 escolas em tempo integral. Dessas, 30 estão em Goiânia, capital do estado e as demais em 78 municípios, distribuídas em 38 coordenações regionais de Educação (CREs). São 67 Centros de Ensino em Período Integral (Cepi) de Ensino Médio, 21 de Ensino Médio e Fundamental e 61 que atendem somente o Ensino Fundamental. Neste início de ano letivo, estão efetivamente matriculados em escolas de tempo integral, 38 mil estudantes, dos quais, 18 mil alunos do Ensino Médio e 20 mil do ensino Fundamental.

O I Encontro Formativo para os Novos Centros de Ensino em Período Integral, realizado no final do mês de janeiro, reuniu 600 professores, gestores e coordenadores regionais de Educação da rede estadual, com vistas ao melhor aproveitamento possível do que já se alcançou na rede estadual nas escolas de tempo integral, tanto naquelas que já atendem nesta modalidade, quanto nas 12 unidades onde o ensino em tempo integral está sendo ofertado a partir deste ano.
A nossa entrevistada, Anna Penido, coordenou uma Mesa de Conversa no Encontro
(Veja a entrevista)

Educação e o tempo integral
Anna Penido – Vou começar falando sobre Educação Integral. Educação Integral é mais do que o tempo em que os estudantes permanecem na escola. Educação integral é essa proposta de a gente promover a formação dos alunos de maneira plena. Isso está presente na Constituição de 1988, na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e, agora, é parte da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

A partir da BNCC, está colocado que todos os currículos de todas as escolas do Brasil têm que promover o desenvolvimento dos estudantes em todas as suas dimensões: intelectual, física, cultural, social e emocional. E quando a gente tem mais tempo a gente consegue fazer isso de maneira mais aprofundada.

A gente consegue ter um ambiente escolar que é mais propício para esse desenvolvimento pleno, a gente consegue ter práticas pedagógicas, ter outros componentes curriculares como projeto de vida, clubes juvenis, que ajudam muito no desenvolvimento para além da aquisição de conhecimentos teóricos. Então, a escola de tempo integral, ela, já é um grande, digamos assim, prenúncio do que devem ser todas as escolas no Brasil.

É uma escola em que a gente vê que, não só os indicadores de desempenho acadêmico são melhores, porque os alunos têm condição de reforçar e aplicar mais o conhecimento que adquirem, mas também os alunos saem com mais autoconfiança, mais determinação, entendendo melhor o que querem da vida, batalhando mais pelos seus projetos de futuro, mais conscientes da convivência, também dos direitos do outro, da convivência harmônica com o colega, das relações mais profundas que são estabelecidas entre aluno e professor e gestores da escola.

Desafios do século 21
Anna Penido – Então, tem ali, todos os componentes que a gente precisa para pensar numa escola que faça sentido para estudantes que já nasceram no século 21, e que vão ter que enfrentar os desafios do mundo contemporâneo, que são muito mais amplos do que simplesmente você decorar alguns conhecimentos para fazer uma prova. As provas que a vida contemporânea nos oferta, exige da gente, são muito mais de atitude, habilidades, de valores do que simplesmente de conhecimentos.

Então, a escola de tempo integral, nos ensina muito sobre como fazer essa escola século 21 para os nossos alunos, independente de suas origens, das suas múltiplas diversidades, uma escola que inclui e que permite que cada aluno descubra o seu potencial e possa exercê-lo plenamente. Não é uma escola de poucos protagonistas e muitos seguidores, é uma escola em que cada aluno tem o seu protagonismo do seu jeito, a partir daquilo que é forte, que é potência dentro de si. E que é muito interessante porque essa escola também permite que o próprio professor se desenvolva como ser humano, que ele, também, seja mais protagonista, crie mais, seja mais autoral na sua prática pedagógica e que ele, também, descubra ali uma série não só de talentos, mas, projetos que o realizam pessoalmente e profissionalmente.

Goiás e o país
Anna Penido – Goiás tem muito já a ensinar porque é um programa de Educação integral que vem de muitas gestões, tem uma continuidade. E isso é muito louvável na Educação pública porque a gente sabe que um dos maiores riscos da precarização da política pública educacional é a descontinuidade, então, em Goiás, há uma continuidade deste programa, e eu fico feliz que ele volte a se expandir este ano, de 2020, com novas escolas entrando.

Mudanças e transformação
Anna Penido – Temos um desafio muito grande esse ano que é a reforma do Ensino Médio. Essa transformação que a gente precisa fazer para que o Ensino Médio volte a fazer sentido para os estudantes e para o mundo também. O Ensino Médio normal, regular, tradicional, não está sendo capaz nem de interessar, engajar os alunos, nem de prepará-los, também, para esse mundo de hoje, permeado por tecnologias, em constante mudança.

Então, Goiás, assim como os outros estados brasileiros, tem esse desafio de repensar em refazer o Ensino Médio e as escolas de tempo integral são, realmente, uma referência importante, inclusive para inspirar as escolas de tempo parcial.

A ideia é que a gente possa ter as escolas de tempo integral mesmo nas de tempo parcial. Escolas preocupadas com o protagonismo, com a educação e o desenvolvimento integral dos alunos, com práticas mais inovadoras, com foco no projeto de vida do estudante, isso tudo é que, realmente, vai fazer a diferença na vida dessas gerações, e, certamente prepará-las inclusive para construir um Brasil melhor do que o que a gente foi capaz até agora.

Acho que muitas das crises que a gente vive hoje no mundo, mas também aqui no nosso país, tem a ver com as pessoas estarem despreparadas para viverem os desafios da contemporaneidade. Então o mundo vai mudando e a gente precisa formar as novas gerações para lidar com essas mudanças. E, nesse momento, estamos com muita dificuldade de saber fazer essa travessia. Então, essas escolas vão ajudar a gente a fortalecer a própria questão do projeto de nação. Um projeto de Brasil arrojado, de Brasil, realmente, voltado para o século 21.

Professor inspirador
Anna Penido – É interessante! Quando tem que trabalhar o projeto de vida do aluno, é fatal que o professor, também, pense no seu projeto de vida. Quantos professores estão em sala de aula hoje sem saber por que estão ali?! Como terminaram ali, como vão fazer com aquilo ali. Até mais cumprindo uma tabela. E a gente está assim em todas as profissões. Muitas vezes paramos para pensar, mas por que eu estou fazendo o que estou fazendo?!

Então, uma escola como essa estimula que até os profissionais repensem. Busquem sentido para a sua vida. Busquem sentido para a sua carreira e profissão. E isso vai sendo um espelho muito positivo para os alunos. Então, quando você vê um professor engajado, comprometido, entusiasmado em ser professor, é claro que um aluno vai olhar e falar bem assim: eu quero ser como ele!

E, participando desta mesa, no Seminário, a gente está aqui com um aluno que decidiu fazer Licenciatura em História inspirado pelo professor, que fez diferença na vida dele. E o que mais a gente pode querer enquanto professor que fazer a diferença na vida dos nossos alunos?!

Preparo do professor
Anna Penido – Acho que as universidades, tanto a Pedagogia como as Licenciaturas, estão passando, também, por uma crise grande. Porque o modelo de escola está em crise. Então a gente formava professores para um modelo de escola que já não atende mais. Então precisamos mudar a concepção de escola e a forma como preparamos os profissionais para trabalharem nessas escolas.

É um processo, e é um processo que está acontecendo de forma, digamos assim, doída, não só no Brasil, mas no mundo todo. Porque o professor foi para uma escola tradicional, ele foi formado para ser professor de uma escola tradicional e, agora, essa escola não funciona mais.

Então, todo seu projeto, sua concepção de Educação entra em ‘xeque’. E nas universidades, é a mesma coisa. Elas passaram uma vida inteira preparando o professor para um tipo de docência que já não funciona mais. Elas também precisam se repensar. Mas não é fácil a gente se desapegar ao que já está acostumado, se abrir ao novo.

O que mais pode nos inspirar ao novo são os alunos. Eles são o novo que nos dizem que a gente não pode continuar fazendo o que a gente sempre fez. Porque, realmente, a gente não está conseguindo os resultados que gostaríamos. Não só os resultados, como eu falei, acadêmicos, mas também e, principalmente, os resultados na transformação dessas vidas, desses alunos, que muitas vezes têm na escola a sua única possibilidade de realização, de sobrevivência, de ter um projeto de vida mesmo.

Tecnologia
Não sei se é uma questão específica da escola de tempo integral, mas, a gente ainda tem políticas muito limitadas de uso de tecnologia na Educação. Na escola pública como um todo, no Brasil como um todo. Ainda temos dificuldades de prover acesso à Internet, a uma Internet ágil, estável, a equipamentos de ponta, a recursos digitais que realmente ajudem na aprendizagem.

E os professores, também, têm pouca formação para lidarem com isso. Então é preciso uma política séria de uso de tecnologia, tanto porque a tecnologia ajuda na aprendizagem de todos os componentes curriculares, quanto porque é uma habilidade fundamental para o século 21 e não podemos deixar de prover isso para os nossos alunos, até porque eles já vivem no mundo digital.